
Saphira
Olhando eles assim, esse entrosamento, eu comecei a sentir falta do Tales, ele era e sempre vai ser mais do que um irmão, ele era o meu melhor amigo. Queria que os gêmeos conhecessem o Tales, queria que eles soubessem o que meu irmão era, o quão importante ele é para mim, porém isso é impossível, já que esse mundo está condenado ao fracasso, e por causa disso, o Tales morreu.
Nós três rimos o dia inteiro, senti falta disso, de rir quero dizer, eles tiram um sorriso fácil de mim, o que é pouco difícil de isso acontecer.
– Vamos ver um filme? – Johanna perguntou, nós concordamos com a cabeça.
Demoramos quase meia hora só para escolher um filme, Johanna queria de romance (simplesmente acontece) e o Johann queria de terror (It: A Coisa), e no final eu que dei o voto final, que foi Simplesmente Acontece (morro de medo de filme de terror), o que deixou o Johann chateado e com um bico nos lábios, o que deu vontade de dar um beijo, mas direi isso da cabeça, mal conheço ele, não sei o por que que eu tenho esses pensamentos, e eles estão ficando cada vez mais frequentes.
Nós fizemos pipoca e brigadeiro (fizemos duas panelas, já que o Johann falou que a Johanna come uma panela inteira sozinha). Colocamos um colchão na sala, deitamos em cima (eu do lado do Johann e a Johanna do seu lado), e demos Play para começar o filme.
Esse filme é bem legal, tem um pouco de drama (coisa que eu gosto bastante), mas na maioria das vezes tem romance.
Ficamos tão concentrados no filme que nem vimos a hora passar, só sei que quando estava na metade do filme, o meu celular vibrou no meu bolso (eu tinha colocado ele no silencioso, por causa da escola, e acabei esquecendo de colocar para tocar de volta). Eu atendi o celular (ainda concentrada no filme).
– Alô?
– Oi, é a senhorita Saphira?
– Sim, quem está falando? – Fiquei assustada, como esse cara sabia o meu nome? Será que era um Stalker?
– Eu liguei para informar que a sua casa acabou pegando fogo.
Eu deixei o meu celular cair da minha mão, eu estava em choque, na mesma hora, rezei mentalmente para que não tenha outra morte, eu não ia suportar. Eu não conseguia me mexer, estava em pânico total.
– O que aconteceu? Saphira? Ei, me responde. – Eu não conseguia identificar quem estava falando, eu só conseguia chorar, porque eu vim aqui? Agora alguém pode está morto, só o que eu respondi foi:
– Me leve para a minha casa, por favor.
Não sei o que eles pegaram, só sei que eu fui para a garagem, entrei no carro, e eu só falei onde era a minha casa, nada além disso, nem colocaram música, acho que viram que não é uma boa hora para isso.
Quando eu cheguei, eu vi o fogo e a fumaça, e foi nessa hora que eu descobri que era real, que aquilo estava mesmo acontecendo, agora eu não tenho mais lar, e o que é pior, alguém pode está morto, pedi para Deus, se aquilo fosse um pesadelo, que me acordasse.
Fui para o corpo de bombeiros e eu não sabia o que falar, eu só chorei, chorei e chorei. Tinha medo de morrer de desidratação, mas eu preferia morrer, do que sentir esse medo, do que sentir essa dor.
– Olá, você é a Saphira?
Eu só acendi com a cabeça, não sabia o que dizer, nem sei como eu estou de pé, acho que só pode ser algum milagre divino.
– Não sobrou nada da sua casa, e infelizmente a sua mãe morreu. – Nessa hora eu fiquei em choque, e parece que o meu choro se intensificou, e com muito esforço (e com um pingo de esperança) eu perguntei.
– E o meu pai?
– Ele está vivo. – Nessa hora eu agradeci aos céus, pelo menos eu não estou sozinha nesse mundo, pelo menos eu tenho mais alguém nessa vida miserável, mesmo sabendo que a minha família nunca vai está completa novamente, ainda assim, eu ainda tinha o meu pai.
– Onde ele está?
– Na delegacia, mas daqui a pouco ele estará aqui.
– O que causou tudo isso?
– Parece que foi o gás da cozinha.
Eu agradeci e o homem foi fazer o seu trabalho, eu vi o fogo reduzindo, eu vi o fogo tentando ganhar força, mas a água expelindo, eu vi o fogo que queimou a minha mãe viva diminuindo, e eu fiquei feliz com isso, pois agora eu sabia que a morte da minha mãe foi vingada.
O gás da cozinha sempre ficou do lado de dentro da casa, sempre falei para a minha mãe que aquilo era perigoso (já perdi as contas de quantas vezes passou isso na televisão), mas ela nunca me deu ouvidos, e olha só o que aconteceu, ela está morta, pelo menos ela virou um anjo, o anjo mais lindo que o céu já conheceu.
O Johann e a Johanna ficaram o tempo todo comigo, não saíram do meu lado um segundo sequer, isso que é amizade. Eu já não tinha mais lágrimas para chorar, mas mesmo assim, eu ainda sentia vontade de chorar.
Quando eu menos percebi, o meu pai chegou, todo bagunçado, com uma cara triste e parecia que também tinha chorado um monte.
– Olá minha vida. – Falou vindo correndo e me abraçando. – Eu sinto muito filha, se eu pudesse ter feito alguma coisa eu faria, acredite em mim.
– Eu acredito pai. – Eu falei com uma voz abafada, pois estava com o meu rosto na camisa dele, sentindo o seu cheiro, e me acalmando aos poucos. – Eu não consigo entender, por que a minha mãe? O porque ela? Ela era uma pessoa tão boa, tão pura, nunca fez mal a ninguém.
– Eu também queria entender filha, mas a vida é assim, quando está tudo bem, ela vem como um terremoto, para te mostrar que você não pode ser feliz nesse mundo. – Ele pegou os meus rostos e segurou entre as suas duas mãos, e me fez olhar para dentro dos seus olhos. – Nós vamos ficar no hotel essa noite, tudo bem? – Eu acenei com a cabeça. – Até ter um lugar para ficar, eu prometo minha filha. – E me abraçou de volta.
– A Johanna e o Johann podem ir com a gente?
Eles ainda estavam ali, porém quietos, deixando que nós tivéssemos um momento pai e filha.
– Não prec… – O Johann ia começar a falar, mas o meu pai interrompeu.
– Precisa sim, vamos, é um agradecimento por tudo que fizeram para a minha filha.
Fomos todos para o carro do meu pai.
– Vocês podem parar na nossa casa? Não temos roupas. – Desde quando a Johanna é tão educada? Não conhecia esse lado dela.
– Claro, só me fala onde é.
