Assombrados (Capítulo 3)

Johann

Aquela menina tinha o cabelo mais lindo que eu já vi, pareciam fogo, não sei se é natural, ou se é tingido, mas do mesmo jeito é lindo. Ela estava chorando e muito, por isso não deu para ver a cor dos olhos dela, e ela tinha uma pele branca, parecia como a neve (eu sei, é clichê, mas é a mais pura verdade). 

Eu decidi sair para dar uma volta, não gosto de ver enterros de pessoas, sempre fico triste, mesmo não sendo da minha família. Acabei parando no parque, e fiquei lá por um tempo, até que começou a chover, mas mesmo assim continuei lá, a água lavando toda a tristeza de mim, até que eu senti uma presença no parque, quando eu olhei era a mesma garota da televisão, e era ainda mais bonita, só que estava chorando muito, não consegui ver a cor deles. 

Por algum milagre divino, não apareceu o dia, a hora e como ela morreu. 

– Oi. – Falei, mas parecia que ela ganhou um susto, acho que não me viu aqui. 

– Quem é você? 

– Eu ia te perguntar a mesma coisa. 

– Desculpa a pergunta, mas você está de luto? – Perguntou na cara dura que eu até me assustei. 

– O que?

– Todo de preto, achei estranho, não me leve a mal, não que eu sou contra aos emos e góticos, não é nada assim… – Ela começou a falar sem parar e eu acabei sendo obrigado a interromper ela. 

– Calma, não precisa ficar nervosa, e respondendo a sua pergunta, não, eu não estou de luto, eu só sou um gótico mesmo, adoro usar preto. 

– Okay. – Falou parecendo um pouco assustada. – Então eu já vou indo. 

Ela se virou, mas consegui a tempo de pegar a sua mão, e que mão macia.

– Espere, você é a irmã do Tales, né?

– Como você sabe? 

– Eu vi na televisão. 

– Ah claro, me desculpe, acabei esquecendo por um minuto, é muita coisa para digerir, sabe? Nem deu tempo para me despedir, e essa chuva não ajudou. 

– Porque ele está chorando? 

– Como você sabe? 

– Confia em mim, eu apenas sei. 

Eu só sei por ter essa maldição, às vezes eu sinto quando algum espírito está triste ou até mesmo feliz, mas nunca cheguei realmente a ver um. 

– Entendi, eu já vou indo. 

Começou a andar. 

– Aonde você mora? 

Eu acho que estou sendo um pouco intrometido e até mesmo posso estar assustando ela, só que eu não tenho nenhum amigo, e eu queria mudar isso, o problema é que eu não sei fazer amigos. 

– Não te interessa. – Ela falou, parece que ela já estava começando a ficar nervosa. 

– Eu sou legal. – Falei tentando convencer ela e até a minha mesmo, nem eu mesmo sei se sou legal, acho que eu teria amigos se fosse. 

– Vestido desse jeito? até parece. – Essa magoou, não gosto que falam do meu estilo, sofro muito Bullying da escola por isso, as pessoas não querem te conhecer por dentro, simplesmente julga pela a aparência. 

– Já estou vendo que não quer minha companhia, me desculpa, não vou mais te incomodar. – Falei desapontando, pensei que com ela seria diferente, pelo visto me enganei.

Eu fui embora, não tinha nada para fazer ali, cheguei em casa, sentei no sofá e coloquei na netflix na televisão, bem na hora que eu fiz isso, eu ouvi a porta sendo aberta. 

– Johann, cheguei. – A minha irmã chegou gritando. 

– Oi. – Falei olhando para ela. – Como foi o encontro? 

– O cara é um babaca.

– Porque? – Dei espaço para ela se sentar no sofá ao meu lado. 

– Ele só queria me mostrar como troféu para os amiguinhos idiotas dele. – Falou com um certo nojo. 

– E você? O que fez? – Falei.

– Eu simplesmente fui embora.

– Fez bem garota. – Falei levantando a mão para ela bater, e assim ela fez.

– Vamos ver que filme? 

– Como assim nós? Não me lembro de ter dito isso. – Falei brincando com a cara dela. 

– Seu bobo. – Me deu um empurrão de brincadeira. 

– Vai lá fazer a pipoca que eu coloco no filme. – Falei me rendendo. 

– Nada disso, você sempre coloca um filme de terror, eu que vou escolher dessa vez. 

– Mas você sempre escolhe romance. – Falei emburrado. 

– Ai meu deus, parece um gatinho emburrado. – Falou dando um ataque e apertando as minhas bochechas. 

– Para guria. – Falei segurando os dois braços dela, para fazer ela parar. 

Vocês devem está se perguntando: “você não sabe o dia da morte da sua irmã?” Na verdade, eu não sei de nenhum membro da minha família, o que eu considero muito bom, imagina saber o dia que a pessoa que você mais ama morre? Deve ser horrível, pode acreditar.

– Coloca no filme Maze Runner: Correr ou Morrer. – Falou mudando totalmente de assunto.

– Okay, sua mandona. – Falei implicando com ela. 

Ela se levantou e foi preparar a pipoca, até que enfim, eu sou péssimo na cozinha, mas a minha irmã arrasa, não sei por que não abre um restaurante. 

Coloquei o filme na TV, esperei mais uns 5 minutos até que a minha irmã chegou com a pipoca, se sentou ao meu lado, e ficamos vendo o filme (que eu já vi umas quinhentas vezes, mas ninguém precisa saber disso). 

Quando o filme estava na metade, senti um peso nos meus ombros, era a minha irmã dormindo, devia estar cansada. Pausei o filme, peguei ela no colo e carreguei ela até o quarto da mesma. Não estava nem na metade, e já estava quase morrendo, não lembrava de ela ser tão pesada, ou de eu ser tão fraco. Coloquei ela na cama, tirei os seus sapatos, coloquei um cobertor em cima dela, dei um beijo na sua testa e sussurrei:

– Boa noite.

E saí de lá. Fui para o meu quarto, peguei uma roupa de dormir, e fui tomar banho. Quando eu terminei, fui me barbear, nem lembrava que a minha barba estava tão comprida. Terminei e fui para o meu quarto, e dormi super rápido. 

———————–*———————– 

Acordei sentindo mais sono ainda, e por incrível que possa parecer, eu não tive nenhum sonho (que estão mais para visões) que eu sentisse dor igual a noite passada. 

Eu ouvi alguém bater na porta. 

– Acorda mano, nós vamos nos atrasar. 

– Já estou acordado. 

Dei a resposta, porque se não ela vai me encher o saco, capaz de arrombar a minha porta, e eu não duvido que consiga essa proeza. 

Olhei o meu celular para ver que horas eram, e arregalei os olhos, falta meia hora para o sinal tocar.

Levantei da cama correndo, mas antes eu arrumei a minha cama, eu sei que não tenho muito tempo, mas como é só eu e a minha irmã que arrumamos a casa, já é uma coisa a menos. 

Fui para o banheiro, eu sabia que não daria tempo para tomar banho, então eu só escovei os dentes, peguei uma blusa preta com uma caveira na frente, uma calça preta toda rasgada, e um all star também preto, como eu já disse, eu sou uma pessoa gótica (ou emo, como algumas pessoas gostam de falar), então essas roupas já se tornaram normais para mim. 

Peguei a minha mochila e desci as escadas. 

– Vamos? 

Falei, pois sabia que não ia dar tempo para fazer alguma coisa para a gente comer. 

– Vamos. – Respondeu de volta. 

Entramos no carro e eu dirigi, já que tinha carteira de motorista. Eu e minha irmã somos emancipados (isso aconteceu antes de eu ter 18 anos), então podemos fazer quase qualquer coisa que queremos, e a propósito, já podemos ser presos (coisa que nunca aconteceu). 

Eu dirigi o mais rápido que deu (claro que sem causar nenhum acidente) para a gente chegar logo na escola, mas foi só estacionar que o sinal bateu. Nós corremos para sair do carro, demos um Tchau de longe e eu fui para a minha aula de português (minha matéria preferida), e se eu não me engano, a minha irmã tem matemática (matéria que nós dois odiamos). 

Cheguei na sala e já estava todo mundo lá, até o professor. 

Sentei na primeira carteira da frente (eu normalmente sento atrás, mas essa matéria era a única que eu sentava na frente – já que é a minha preferida). 

Todas as pessoas restantes entraram na sala, e o professor começou a dar a sua aula, só que na metade dela, uma pessoa bateu na porta e ele convidou para entrar.

– Oi. – Falou com um tom tímido, e quando eu olhei, meu deus, que mundo pequeno, e agora eu pude olhar os seus olhos, são verdes, como duas pedras preciosas, mas eu não liguei muito para ela, já vi que ela não gostou de mim quando a gente se encontrou no parque, então não vai gostar de mim agora. 

– Oi, você deve ser a aluna nova?

– Isso, sou a Saphira. – Falou entregando um papel para ele. 

Agora que eu me liguei, eu não sabia o nome dela, e para falar a verdade, o seu nome é lindo, combinava com ela. 

Ele anotou o nome dela na chamada, e falou. 

– Pode entrar, se senta atrás do Johann. – Falou devolvendo o papel para ela. 

– Obrigada.

Eu levantei a mão para ela saber que sou eu o Johann, ela ficou com uma cara de assustada, mas mesmo assim sentou atrás de mim, ela sussurrou um “oi” e eu respondi a mesma coisa, e depois disso não falamos mais nada.

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